UIVANDO PELO MUNDO ...

Seja bem vindo ao Uivo da Loba

center>

sábado, 13 de dezembro de 2014

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.
Rumi – Poemas Místicos
Uivo da Loba

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Conta-me

Conta-me

Se algum dia eu não souber mais quem fui
contarás histórias de mim
falarás de nós
dos sonhos
dos outonos
descreverás o sabor das frutas que juntos provamos
me dirás que o que eu mais gostava no verão era de Ti
escutaremos juntos o barulho da ondas nas conchas esquecidas do tempo
navegaremos por mares imaginários
trazendo á tona o dia em que o os atravessei por ti
me falarás de um tempo feliz
das romãs e das oliveiras em flor
do cheiro da terra e do mar
dos sonhos
das conquistas
não me dirás o que foi ruim, pois isto já não mais importará
me falarás da luz que brilhava em meus olhos
e nesse dia me recordarei de tudo
olhando pra Ti
saberei quem és
Tu,
meu Sol.

Valéria Russo

Pra ti meu lindo... sempre pra Ti!

Texto protegido pela lei dos direitos autorais:
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. — com Carlos Antunes em Faro.
Conta-me

Despoema

Sinto falta do mundo com paredes de livros que contam histórias de mim
dos retratos mortos e apagados dos que já tiveram vida
da escuridão do quarto, onde o luar invade e reflete a cara ressacada no espelho daquilo que tentamos esconder
os ecos dos risos e choros que ficaram presos no tempo
vazias as gavetas, ainda guardam o cheiro das memórias
entre o circo e o caus vive-se uma vida
lamentos e sonhos na cidade selva traz no grito da noite o desespero de seus bichos
rosnam, cospem, conspiram, copulam
em meio ao nada
plenos de tudo
"A Walk On The Wild Side"
Lou Reed os chama
exauridos
abrem os olhos
mas nunca despertam.
Saudade é a bituca no cinzeiro.

Valéria Russo


Texto de minha autoria protegido pela lei dos direitos autorais LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.
Despoema

terça-feira, 7 de outubro de 2014

"Pulsam em mim tamanhas transformações
que já não sei se sou casulo ou mariposa
se vôo ou se teço!
Há tantos fios e coloridos
que na tela do meu ser
existe asas furta-cores
e colchas coloridas cobre o corpo
que por leve estar
passeia entre sonhos e nuvens
entre pétalas e pólens
deixando rastro perfumado
nas estradas que trilho
espalhando suavidades
nas mãos que toco!
E quando assim não mais for
que mais mutações surjam
levando o que não mais servir
permitindo florir
novas cores
novas flores
novos caminhos!"

Rose Kareemi Ponce

Dia 324. (excerto)
Dos meus olhos para os teus voaram as abelhas brancas
do desejo. Como repartiremos o mel?
O infinito separa-me de tudo menos dos teus braços.
Há poços sem fundo na superfície da tua pele. E eu
beijo o teu corpo para matar a sede.

Joaquim Pessoa
 — com Carlos Antunes.
XVIII

Não fora o teu olhar a ditar-me o caminho
e seria mais um na guerra dos sentidos.

Assim, bebo na tua boca a vida e
aos teus silêncios amarro a minha sede.
As tuas palavras são a lei do meu espírito
e o teu corpo o meu campo de luxúria.

Contigo sinto azul em qualquer céu.

Edgardo Xavier, in Azul Como o Silêncio (Chiado Ed., 2014)
"De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia.
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder."

.
Miguel Torga. Depoimento. In: Diário XIII
Miguel Torga
"Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti."

.
Mia Couto. In: Venenos de Deus, Remédios do Diabo
Mia Couto
 Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

José Saramago - Ensaio sobre a Cegueira.
Aquele que deseja continuamente ‘elevar-se’ deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas porque sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.

Em A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera.
No início,
eu queria um instante.
A flor.
Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.

Mia Couto, In Idades cidades divindades.

Nada é Certo

Nada é Certo


Ninguém avança pela vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutávelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito
limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar.

Henry Miller, in 'O Mundo do Sexo'
Marcar fotoAdicionar lo

A Adiada Enchente

A Adiada Enchente


Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Mia Couto

Poema Nonagésimo Quinto (excerto)

Poema Nonagésimo Quinto (excerto)


Uma fome de tudo, uma fome de todos.
Fome do que és, do que pensas, do que estás
pronto para pensar. Dos que ficam. Dos que partem
e dos que os acompanham. Das coisas bem e mal feitas,
do silêncio, dos tambores, e dos tambores do silêncio.
Fome do pecado, do fogo, do espanto e do azul.
Fome de mim, de ti. De fúria. De futuro. E das coisas
que não sabem nem encontram o caminho. Dos que
rezam, dos que cantam, dos que seguem as estrelas
e dos que olham o passado sobre os ombros de um tempo
que se busca a si mesmo. A fome litoral dos oceanos,
a fome dos homens da floresta e dos pássaros brancos
casados com o mar.

Joaquim Pessoa
Tuas mãos, alecrim
Teus cabelos, Mar
O sal da Terra 
Sol
Quando no caos nada me resta, a não ser a dor de minha própria solidão, é aí que me encontram as tuas mãos...
Valéria Russo
Pra ti meu lindo, sempre pra ti!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Calíce

Em pleno século 21, depois de mais 40 anos de "Ditadura Militar" no Brasil, ainda tem reácionários defendendo que as "Forças Armadas" entrem em ação caso a esquerda assuma o controle do País, esse povo é sem noção mesmo ou são apenas acéfalos?
Não estou fazendo campanha política, pois minhas conviccções e voto só me dizem respeito, mas lêr absurdos como este correndo solto nas páginas do FB me dá vontade de gritar e chorar, eu nasci na ditadura, sou filha da repressão, quando era menina nem uma camiseta vermelha eu podia usar pois era coisa de "comuna comedor de criancinha e anticristos", lutei pelas Diretas , fui pras ruas pedir LIBERDADE e Democaracia para um povo, meu povo, eu; oprimido e massacrado por um governo que não permitia-nos sequer sonhar. Tanta luta, tanta força bruta, tantas famílias esfaceladas pela dor e tortura e esses infelizes, ignorantes e reacionários estão pisando na merda e espalhando como se perfume fosse, Pai perdoai, Eles não sabem o que fazem!


CALÍCE

domingo, 3 de agosto de 2014

Garrincha

Garrincha

a maior glória do futebol
nasceu em Pau Grande só
pra sacanear o vernáculo.
e pra zombar da anatomia,
perna torta.

Publicado no livro Olhos vermelhos (1979).

In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.65. (Cantadas literárias, 16

sábado, 5 de julho de 2014

Meu Destino

Meu Destino

Nas palmas de tuas mãos
Meu Destino

leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos.
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

- Cora Coralina, em "Meu livro de cordel", São Paulo: Global Editora, 1998.

Pra ti meu lindo... sempre pra ti!
 — com Carlos Antunes.

Amei-te sem saberes

Amei-te sem saberes
Amei-te sem saberes

No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu impercetível crescer
como carne da lua
nos noturnos lábios entreabertos
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio — em Mia Couto

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Light my fire

Light my fire
Light my fire

Light my fire

Não escrevo para empurrar o tempo.
Escrevo para que o tempo me empurre
Ao abismo das palavras.
Morrer pode ser insigne ou insignificante.
Depende do defunto,
Apesar do fedor ser o mesmo.
A caixa é que muda a condição
Do fedor
E do substantivo que o carrega.
Caixa-prego, féretro, rabecão,
Mausoléus que abrigam nobres sarcófagos
Ou gavetas no muro de indigentes.
Os mais estilizados preferem a pira funerária.
Eu, de minha parte,
Prefiro Jim Morrison
Viril e sensual
Naquela calça de couro
Que só nele ficava bela
Colada bem ao corpo
Cantando apenas para mim:
“light my fire.”
- baby, light my fire, light my fire… oh, yeah!

Lou Albergaria em O Cogumelo que nasce na bosta da vaca profana - Ed. Vidráguas, 2011.

domingo, 1 de junho de 2014

E assim, passou um ano...

A um ano atrás, eu chegava a Portugal com minha filha pra viver um sonho de amor e recomeçar uma vida com novas perspectivas e expectativas.
Foi um ano diferente, dias saudosos, dias muito felizes e alguns tristes também, afinal nem tudo são flores na vida da gente, costumes diferentes, longe dos amigos queridos, sentindo falta do samba, da cerveja gelada e das risadas com as irmãs do coração, da agitação dos dias de São Paulo, houve dias em que até da poluição e do trânsito eu tive saudades, o que mais senti e sinto falta é da alegria do povo Brasileiro, essa coisa contagiante que não existe em lugar algum do mundo, só quem é sabe do que estou falando, mas se valeu a pena? Sim e muito.
Vivo num lugar de paz, ando nas ruas tranquila sem medo de ser assaltada, sem sequestros, saidinhas de banco, sem stress, sem poluição e sem neuroses e o mais importante, vivo com meu amor.
Por amor eu atravessei o oceano, por amor eu deixei tudo pra trás, por amor eu fiz o que poucos teriam a coragem de fazer e não me arrependo, estou feliz, sou amada.
Um ano passou depressa, pois quando se é feliz o tempo não se mede, um segundo basta pra viver uma eternidade. — com  Carlos Antunes em Faro.
E assim, passou um ano...

domingo, 25 de maio de 2014

Ave Chiquinho!

Fui criada no Catolicismo, mas papai era kardecista, eu hoje sigo as tradições do Candomblé, tenho amigos ateus, crentes, budistas, espiritas, muçulmanos, daimistas, enfim, tem pra todo o gosto e credo, nunca julguei ou julgarei a opção de crença de cada um deles, são meus amigos e valem pra mim pelas pessoas boas e por seu caráter, o resto não me diz respeito, pois amar é respeitar a vontade individual e não julgar as pessoas por sua fé ou por suas opções de vida e sexuais...
O Papa Francisco, contrariando toda a mentalidade arcaica da milenar igreja cristã, tem a coragem de dizer o que pensa, e com atitudes de amor, respeito e compreensão tenta fazer o seu trabalho, que é levar a paz e união aos povos do mundo, é um homem digno, um verdadeiro Servo de Deus que merece todo o meu respeito e admiração.
Que nós sigamos seu exemplo e deixemos de lado preconceitos religiosos, amemos as pessoas por simplesmente serem filhos de Deus, este não foi o ensinamento maior de seu filho Jesus? Pratiquemo-lo!
Ave Papa, Ave Chiquinho!
Ave Chiquinho

domingo, 18 de maio de 2014

Algo sobre ser amada

Nunca busquei riqueza, luxo, ou uma vida de glamour, o que sempre busquei em minha vida foi paz, um colo bom, uma palavra amiga, um abraço de conforto nos momentos difíceis, alguém que estivesse ao meu lado pelo prazer de estar, por se sentir bem, em paz, feliz, e por estar feliz, poder igualmente me fazer feliz.
Apesar em ter nascido em berço de ouro como muitos dizem, minha vida nunca foi fácil, travei e travo batalhas ferozes, por vezes venço, por outras sou vencida, mas sempre me mantenho na luta, com esperança e um sorriso no rosto.
Aprendi que felicidade é mais simples do que parece, ela está nos detalhes, no sol que bate em nossa janela nos convidando a vida e na nossa vontade de fazer com que as coisas deem certo, acreditando que cada dia pode ser melhor que o ontem.
Sou uma abençoada por que o amor sempre foi bonança em meu viver, onde tudo me faltou o amor me supriu e me supre ainda hoje, só tenho a agradecer a Deus por mais uma vez ter colocado na minha vida alguém pleno de bondade, paz interior e com um amor puro, infinito, capaz de trazer silêncio e paz a alguém com tantos barulhos na cabeça e alma.
Obrigada por existir e me fazer tão feliz, eu te amo muito! — se sentindo amada com Carlos Antunes em Faro.
Algo sobre ser amada

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Falando de amor

Quem te ama te valoriza, faz de tudo pra ficar ao teu lado e te ver bem, aguenta tuas manias,te apoia nos momentos difíceis, te dá a mão, o braço, a mente, essa relação deve ser reciproca, para ser dois antes temos de ser um, e nos amar.
Uma relação verdadeira é baseada no amor, companheirismo, respeito, compreensão, é estar com o outro por que este te faz bem, é sentir-se pleno de felicidade e saber que poderia estar em qualquer outro lugar mas é ali, ao lado daquela pessoa, que você se sente feliz.
Amar alguém é saber perdoar falhas não mau caratismo e traições, é brigar juntos pra construir não pra destruir a relação, é saber dar aquele abraço na hora certa e um sorriso malicioso nas outras...
Amar é estar bem, sentir-se bem ao lado do ser amado, é paz!
Se te fere, te faz chorar, as mágoas são maiores que os sorrisos, sai dessa, amor não oprime, amor te liberta, liberte-se!
Uivo da loba

sábado, 19 de abril de 2014

Dia do Índio




Dia do Índio
E todo dia era dia de Índio...

Parabéns aos nossos Índios, expropriados de sua terras, massacrados pelos Brancos, humilhados e mesmo assim sobreviventes...
Quando todos os dias eram deles, hoje resta apenas o dia 19 de Abril, pra que lembremos quem eram os verdadeiro donos da "Terra Brasilis."

Feliz Páscoa

Feliz Páscoa a todos os amigos, que a alegria esteja presente em todos os lares, que os sonhos se renovem e possamos perdoar e recomeçar sempre, pois a vida só tem sentido se houver amor, paz e união. Bjus no coração de todos!
Feliz Páscoa

Contra.pontos poéticos I

Uivo da Loba


Um dia viu-me ver uma janela. 
Deixou que me deixasse ficar na nostalgia cúmplice da visão das crianças que adiante corriam e gritavam e sabiam estar numa vida sem estradas de asfalto a doer os pés descalços.

Reaproximei da voz íntima que perpassava o vidro frio da janela inexistente.

Um dia ouviu-me ouvir a súplica distante que dizia
"retorna-me àquele tempo, deixa-me também perder as estradas e correr disparada até que
nenhuma porta enjaule,
nenhuma janela importe"

Um dia travou meu impulso de me jogar ao desejo de transpor vidro, batente e trava.
Transpor e cair.
Cair ou voar.

...

Um dia impediu meu corpo impune e fez minha palma tocar ao leve a janela.

Sumi as crianças.
Desfoquei a rua.
O mundo se tornando em ritmo de soro o meu reflexo difuso.

Um dia me reaproximei de sua voz sussurrada que dizia

"aprende a gostar do vidro
antes de partir ao mundo."

Texto da página Poesia & Nanquim

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Tempo – Morte
Corroendo
As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
Tempo.
Vívida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
Tempo.
Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento
Como te chamas?
Tempo.
Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros
Como te chamas, breu?
Tempo.

Hilda Hilst
in “Da morte. Odes mínimas.”

Uivo da Loba

RUA BAKUNIN, SEM NÚMERO

Rasgo a alma para que caibam
os versos sem melodia
os erros de gramática
e a suprema crueldade do amor
daqueles que criam pássaros
engaiolados. E ouvem
esse canto domesticado
como se fosse Mozart numa
camisa de força – E aplaudem!

Eu, se fosse o pássaro trancafiado,
tentaria – de todas as formas
quebrar alguma taquara (ou arame)
dessa gaiola.

Vai ver é por isso que não aceito:

Nem métrica Nem prisão!
Nem pátria Nem patrão!

Lou Albergaria
Uivo da Loba

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ponto de Honra

Ponto de Honra


Desassossego a paixão
espaço aberto nos meus braços
Insubordino o amor
desobedeço e desfaço

Desacerto o meu limite
incendeio o tempo todo
Vou traçando o feminino
tomo rasgo e desatino

Contrario o meu destino
digo oposto do que ouço

Evito o que me ensinaram
invento troco disponho
Recuso ser meu avesso
matando aquilo que sonho

Salto ao eixo da quimera
saio voando no gosto

Sou bruxa
Sou feiticeira
Sou poetisa e desato

Escrevo
e cuspo na fogueira

Maria Teresa Horta

Preconceito

Hoje, lí um desabafo sobre preconceito que uma amiga sofreu por ter tatuagens, e fiquei refletindo sobre isso, afinal eu tenho, e me sinto indignada quando vejo tal coisa acontecer numa sociedade em que a bunda é patrimônio nacional, onde as escolas passam de ano seus alunos sem saber sequer ler, onde a política rouba e expropria a olhos vistos e a violência contra mulheres, crianças e idosos é constante nos "Pasquins Tupiniquins", quando a qualidade musical do país é resumida ao batidão do funk, e as pessoas fingem não ver o pão e circo que está sendo criado com a copa do mundo, pra tirar do centro das atenções a miséria latente e a decadência do nosso país...
Num mundo onde impera a violência, fome, desamor, desesperança e a hipocrisia, ainda há pessoas que se acham no direito de julgar a aparência exterior dos outros.
Caráter, honra, respeito e responsabilidade se tem ou não!
Critique a sociedade em que vivemos, feia é a fome que assola o mundo.
Eu tenho tatuagens; porque gosto, posso, e porque ninguém, absolutamente ninguém, tem nada a ver com a minha vida, preconceito se existe, eu nem ligo; pois quem paga minhas contas (e são bem altas) sou eu.
Como uma vez disse minha irmã de coração "tem que ter atitude" pra exibir tatuagens desse tamanho, ela tinha razão, atitude é o que não me falta.
Tatuagem não define caráter, agora preconceito é a falta dele!

Valéria Russo
Preconceito

A Qualidade do Mistério

A Qualidade do Mistério

Quem percorre escalas dos abismos às estrelas
e caminha em labirintos e conhece o avesso
sabe dos explosivos que há nas galerias subterrâneas
sabe o lugar
onde os possessos, os ferozes, os obsessivos, os devassos
os obstinados, os físicos, os alquimistas, os que lidam
com os sonhos, os que se entregam à paixões
vem banhar-se
sabe do que eles se alimentam
e como enlouquecem na articulação dos tempos

quem sabe onde repousa remota e anônima aquela lua vermelha
e onde as espirais intermináveis do desejo se iniciam

quem está acostumado a extensões
a superfícies, a temperaturas e significados
e determina os pontos cardeais
quem decifra enigmas e dispõe
do poder da semente
embrenha na aranhosa viagem
através da matéria misteriosa da mente
e de todos os outros sentidos, além dos cinco

quem conhece o que se move
e não se espanta
conhece o jogo, conhece mais, o privilégio.

Bruna Lombardi
A Qualidade do Mistério

O Esconderijo

O Esconderijo
Mulher é sempre mais perigosa;
pois guarda um esconderijo dentro de si.
E guarda 
todas as horas, e os filhos
que não se tornaram óvulos. E
os homens que não se tornaram amor.
E os que vingaram
foram expulsos do paraíso – como os anjos
rebeldes: eu & você
e este desejo de fazer a revolução
empunhando a palavra – Amor!
:
Depois,
abre-se a mão, abre-se o útero:
e voltamos ao paraíso! Ou,
é só um outro modo de se esconder?

Lou Albergaria

sábado, 5 de abril de 2014

Domingo

Procuro o verso embrionado...
Entranhado, o poema não que ser parido...
Em minha fecunda imaginação, apenas a palavra: Domingo!
Domingo por si já é um poema
Uma Ode triste
Um espasmo dilacerante pros meus nervos
O imobilismo
O fim e o começo
O passivo
Lamento... Se lhe rasgo a poesia
Sempre odiei os Domingos.

Valéria Russo
(Loba)
Domingo

A Mãe que Chovia

A mãe choveu sobre as piscinas, as barragens, o mar, os rios, as pontes, os barcos, as gruas, os portos, as marinas, os lagos, os jardins, o jardim zoológico, os macacos, os elefantes, as girafas, as zebras, os hipopótamos, os tigres, os leões, as avestruzes, as cobras, os crocodilos e os tamanduás. A mãe choveu sobre as quintas, as galinhas, os patos, os cavalos, os burros, as vacas, os porcos, as ovelhas, as cabras, os cães, os gatos e os ratos.
A mãe choveu sobre as prisões e os cemitérios. Ui.
A mãe choveu sobre os hospitais, as paragens de autocarro, as estações de comboio, os jardins, as estátuas, as igrejas, as mesquitas, as sinagogas, os templos, as fábricas, as lojas, os terrenos vazios, os edifícios em obras, os hotéis, os museus, os teatros, os cinemas, as varandas, os terraços, as esplanadas, as praias, as montanhas, as tendas de circo, as tendas de campismo, as cabanas, as barracas, as lixeiras.
A mãe choveu sobre os guarda-chuvas, as cabeleiras, as carecas, os chapéus e os bonés. A mãe choveu desesperada por todo o lado, mas não o encontrou.
Então, de repente, então-então, a mãe começou a sentir uns pés a atravessarem-na.
Depois, umas pernas.
Era o seu filho que descia de pára-quedas através dela.
Sorriram um para o outro.
A mãe, cansada, aliviada, feliz, continuou a chover muito mansinha.
Não queria chover demasiado.



A Mãe que Chovia

Solstício



Solstício
Solstício

O poema não acontece quando eu quero.
Assim como a lágrima, só é verdade
quando escorre. Ou fica ali prestes a cair
desanuviando a íris
tal um girassol no deserto;
nem sim nem não
– algo humano que desliza
e rasteja – pede clemência:
saliva é oásis!
A porção Deus em mim
não segue procissão.
Sinto falta de um altar no sol.

Ou é o contrário?

Lou Albergaria

Amoras Amorais



Amoras Amorais
Amoras Amorais

O ano é 1969: a primeira mulher
pousa na Lua em 27 de julho – e logo
a menina, filha de Woodstock, 
procura um canto
onde possa cultivar os
seus mistérios – livre! do
que os outros vão pensar:
Amoras amorais! depois que
todas as maçãs foram usadas
pra sufocar as mulherzinhas
dos contos de fadas,
a mulher que não aceita opressão
aponta como novo símbolo do desejo
a amora – esta que se permite
enrodilhar na língua a serpente
e ainda deixa Adão
pra depois do jantar.

Lou Albergaria

"Existem silêncios que falam e se ouvem mais do que palavras, é aquele silêncio que eu admiro e que quer dizer que não necessitamos de declarar absolutamente nada à outra pessoa. Neste caso a outra pessoa és tu. Quem mais poderia ser?"

Pra Ti meu Lindo... sempre pra Ti, EU Te Amo!


Uivo da Loba

Tão bom viver dia a dia

Uivo da Loba


Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana

"Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho. Eles passarão, eu passarinho" 

Mário Quintana
Uivo da Loba

Quero Apenas

Quero Apenas


Quero apenas

Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.
Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Olga Savary

Ar




Ar
Ar

É da liberdade destes ventos 
que me faço.
Pássaro-meu corpo 
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.

Olga Savary

As Pessoas Sensíveis


As pessoas sensíveis





As Pessoas Sensíveis 

As pessoas sensíveis não são capazes 
De matar galinhas 
Porém são capazes 
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen

Canta

Canta

Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes estão
lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te decisão
nos passos e firmeza nos gestos. Procura-te. Tenta encontrar-te
antes que te agarre a voracidade do tempo. Faz as coisas com
paixão. Uma paixão irrequieta, que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força,
é teu, nem um cêntimo pagarás por ele. Quanto deves
é à vida, o que deves é a ti mesmo.
Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores, canta cada momento que partilhas com amigos,
e cada amigo como um astro que desperta
no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor.
E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros
os séculos passados e os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida, talvez beleza, orgulho,
pedaços de prazer. A estrela que contemplas talvez já não
exista, quem sabe?, o que te ajudou a ser vida
de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta.
Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor, ama o teu amor. De tudo
o que as pessoas querem, o que mais querem é o amor.
Sem ele nada nunca foi igual, nada é igual,
nada será igual alguma vez.
Canta.
Canta

Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança.
E canta quando a esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas
de cantar e porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta
porque és livre. E canta se te falta
a liberdade.

Joaquim Pessoa in Vou-me embora de mim

segunda-feira, 24 de março de 2014

Quando as Palavras Saem pra Passear

Uivo da Loba


sobre uma pedra
no alto do despenhadeiro

ela observa o desenho
traçado pelo voo
das palavras

com a alma vazia
de vocábulos
agora é só
sentimento
se quisesse gritar
não poderia

venta forte
e ela lá
inerte e nua
posando de Afrodite

só os cabelos
é que dançam

sabe que sua sina
é enfrentar dragões
para acender o firmamento

por isso não foge de nada
nem do fogo que se
alastra nas entranhas

Bianca Velloso
http://poesiacotidianabia.blogspot.com.br/


domingo, 23 de março de 2014

Lilith Balangandã

Lilith Balangandã


Ponho o lenço do pescoço na cabeça
Molho os cabelos com calma
uma mulher é uma espécie de alma com enfeite 
Chega diante do espelho
adorna-se como uma árvore de natal
nem é natal
mas ela vai dar bola
Às vezes não varre o quintal
mas pinta as maçãs
blushes ruges
Às vezes não costura
mas realça cortinas
cílios rímel lápis
Às vezes não conserta as portas
mas pinta as bordas das janelas
pálpebras delineador sombra
Mulher é uma Eva encantada
de espalhar-se por fora
em paraíso
batom cintura tesão juízo
pulseiras brincos balangandãs
são seus sonhos de fachada
que repetem de dentro
que rondam a porta da casa
Invento de princesa

Durante todas as primaveras
um cardume de cinderelas
ainda insiste dentro dela.

Florescer

Florescer


Florescer – é Resultar – quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente
Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano –

Encher o Botão – opor-se ao Verme –
Obter o que de Orvalho tem direito –
Regular o Calor – escapar ao Vento –
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza
Que A espera nesse Dia –
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade -

ORIGINAL

Bloom - is Result - to meet a Flower
And casually glance
Would scarcely cause one to suspect
The minor Circumstance

Assisting in the Bright Affair
So intricately done
Then offered as a Butterfly
To the Meridian -

To pack the Bud - oppose the Worm -
Obtain its right of Dew -
Adjust the Heat - elude the Wind -
Escape the prowling Bee

Great Nature not to disappoint
Awaiting Her that Day -
To be a Flower, is profound
Responsibility


 EMILY DICKINSON
Tradução de João Ferreira Duarte
Relógio de Água, 19

E AS LOUCAS HORAS

NÃO COMPRE ANIMAIS, ADOTE!!!BICHO É TUDO DE BOM .

NÃO COMPRE ANIMAIS, ADOTE!!!BICHO É TUDO DE BOM .