UIVANDO PELO MUNDO ...

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Marinheiro sem Mar

Marinheiro Sem Mar

Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras
Mas perdido caminha nas obscuras
Ruas da cidade sem piedade

Todas as cidades são navios
Carregados de cães uivando à lua
Carregados de anões e mortos frios

E ele vai baloiçando como um mastro
Aos seus ombros apoiam-se as esquinas
Vai sem aves nem ondas repentinas
Somente sombras nadam no seu rastro.

Nas confusas redes de seu pensamento
Prendem-se obscuras medusas
Morta cai a noite com o vento

E sobe por escadas escondidas
E vira por ruas sem nome
Pela própria escuridão conduzido
Com pupilas transparentes e de vidro

Vai nos contínuos corredores
Onde os polvos da sombra o estrangulam
E as luzes como peixes voadores
O alucinam.

Porque ele tem um navio mas sem mastros
Porque o mar secou
Porque o destino apagou
O seu nome dos astros
Porque o seu caminho foi perdido
O seu triunfo vendido
E ele tem as mãos pesadas de desastres

E é em vão que ele se ergue entre os sinais
Buscando pela luz da madrugada pura
Chamando pelo vento que há no cais

Nenhum navio lavará o nojo do seu rosto
As imagens são eternas e precisas
Em vão chamará pelo vento
Que a direito corre pelas praias lisas

Ele morrerá sem mar e sem navios
Sem rumo distante e sem mastros esguios
Morrerá entre paredes cinzentas
Pedaços de braços e restos de cabeças
Boiarão na penumbra das madrugadas lentas

E ao Norte e ao Sul
Ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas

E o espírito do mar pergunta:

"- Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazios
De ondas brancas e fundas
e de verde vazio?"

Ele não dormirá na areia lisa
Entre medusas,conchas e corais

Ele dormirá na podridão
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Exactos e transparentes
O esquecerão

Porque ele se perdeu do que era eterno
E separou o seu corpo da unidade
E se entregou ao tempo dividido
Das ruas sem piedade.

Sophia de Mello Breyner Andressen

Uivo da Loba

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Viver é...

Viver é...

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

Viver é...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

De volta ao Uivo...

Uivo da Loba
Primeiramente desejo a todos os blogue amigos um feliz ano novo repleto de realizações, saúde, paz e sucesso.
Estou de volta depois de muito tempo, me adaptando as novidades do blogue e as novas atualizações, confesso que estou um pouco perdida, mas pretendo voltar a postar regularmente e visitar os amigos queridos que ha muito não vejo.
Muita coisa mudou na minha vida nestes dois últimos anos em que andei quase ausente por aqui, fiquei viúva, conheci uma nova pessoa que me faz muito feliz, mudei de país, hoje moro em Portugal com meu novo amor e minha querida filhota, a vida se renovou, eu me renovei e gora sinto novamente vontade de voltar aqui, escrever, participar e reencontrar pessoas tão queridas que por muitos anos me acompanharam e participaram da minha vida.
Aos poucos acredito que ficarei integrada com todas essa novidades, são muitas, mas como sempre tem a ajuda fantástica da querida +Elaine Gaspareto , que com sua generosidade nos dá dicas valiosas e foi com suas dicas que consegui realizar algumas coisas por aqui, obrigada querida Elaine por tudo sempre.
Aos antigos e aos novos amigos que chegarem eu só posso deixar um bjuivo com muito carinho e dizer que estamos juntos nessa maravilhosa blogosfera agregando conhecimento, partilhando emoções e fazendo amigos.

Loba

domingo, 5 de janeiro de 2014

Abriu a carta e leu...

Abriu a carta e leu... Não era uma despedida, tampouco uma carta de amor, percorreu com os dedos ressabiados aquelas linhas que haviam sido por ela escritas, dois anos sem noticias e agora chegava ás suas mãos uma carta daquela que um dia sem avisos partira deixando pra trás um coração dilacerado... Não imaginara que depois de tanto tempo o passado retornasse dessa forma, sentiu um frio na barriga e uma emoção mista de raiva e saudade, um país distante, sonhos que se foram com ela, tudo veio a mente, tudo era mágoa. Não havia explicações... não havia justificativas, apenas quatro palavras resumiam o conteúdo da carta "Senti saudades, peço perdão!" Perdeu-se a olhar o horizonte, sorriso no canto dos lábios, coração aos pulos, tinha novamente a força propulsora da vida já há muito tempo perdida, a esperança!
Abriu a carta e leu...

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Anarquia


Sei que depois sinto remorsos 
de ser tão estupidamente malcriada 
de falar tanto e ser tão atirada 
uma lagarta tamborila nervosa 
seus pezinhos em cima da mesa 
me desculpe
todos os dias prometo
hei de ser mais indefesa
mais contida. Quieta como
uma japonesa.
Mas de repente essa coisa desfraldada
desbocada, destemida, que eu sei
que te incomoda
explode inteira cor-de-rosa
perigosamente sulferina,
Qualquer pequena luz
pra mim é festa e me ilumina.


Bruna Lombardi

"Anarquia", do livro O Perigo do Dragão

domingo, 17 de novembro de 2013

Arrebatada

Arrebatada

Eu não quero a ternura
quero o fogo
a chama da loucura desatada

quero a febre dos sentidos
e o desejo
o tumulto da paixão arrebatada

Eu não quero só o olhar
quero o corpo
abismo de navalha que nos mata

quero o cume da avidez
e do delírio
sequiosa faminta apaixonada

Eu não quero o deleite
do amor
quero tudo o que é voraz

Eu quero a lava


Maria Teresa Horta
Artist Paige Bradley - Escultura


Pra Ti Meu Lindo... Sempre Pra Ti!!!
 — com Carlos Antunes em Faro,Algarve - Portugal.

E AS LOUCAS HORAS

NÃO COMPRE ANIMAIS, ADOTE!!!BICHO É TUDO DE BOM .

NÃO COMPRE ANIMAIS, ADOTE!!!BICHO É TUDO DE BOM .