UIVANDO PELO MUNDO ...

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domingo, 23 de março de 2014

Lilith Balangandã

Lilith Balangandã


Ponho o lenço do pescoço na cabeça
Molho os cabelos com calma
uma mulher é uma espécie de alma com enfeite 
Chega diante do espelho
adorna-se como uma árvore de natal
nem é natal
mas ela vai dar bola
Às vezes não varre o quintal
mas pinta as maçãs
blushes ruges
Às vezes não costura
mas realça cortinas
cílios rímel lápis
Às vezes não conserta as portas
mas pinta as bordas das janelas
pálpebras delineador sombra
Mulher é uma Eva encantada
de espalhar-se por fora
em paraíso
batom cintura tesão juízo
pulseiras brincos balangandãs
são seus sonhos de fachada
que repetem de dentro
que rondam a porta da casa
Invento de princesa

Durante todas as primaveras
um cardume de cinderelas
ainda insiste dentro dela.

Florescer

Florescer


Florescer – é Resultar – quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente
Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano –

Encher o Botão – opor-se ao Verme –
Obter o que de Orvalho tem direito –
Regular o Calor – escapar ao Vento –
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza
Que A espera nesse Dia –
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade -

ORIGINAL

Bloom - is Result - to meet a Flower
And casually glance
Would scarcely cause one to suspect
The minor Circumstance

Assisting in the Bright Affair
So intricately done
Then offered as a Butterfly
To the Meridian -

To pack the Bud - oppose the Worm -
Obtain its right of Dew -
Adjust the Heat - elude the Wind -
Escape the prowling Bee

Great Nature not to disappoint
Awaiting Her that Day -
To be a Flower, is profound
Responsibility


 EMILY DICKINSON
Tradução de João Ferreira Duarte
Relógio de Água, 19

Devia Morrer-se de Outra Maneira

Devia-se Morrer de Outra Maneira


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica 
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

Jose Gomes Ferreira

quinta-feira, 20 de março de 2014


Uivo da Loba

As minhas depressões talvez sejam 
as minhas metamorfoses:
É a maneira que eu tenho 
de passar de lagarta 
a crisálida.

São etapas de libertação.

António Alçada Baptista.
“Às vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda...” 

Clarice Lispector
Clarice Lispector

segunda-feira, 17 de março de 2014

...dos seres abissais XII...

então,
contemplo assim
ao longe
seus mergulhos insanos
em águas profundas

entram em cavernas escuras
que os outros estremecem
só de intuir a existência

eles não...
são como cachalotes estupendos,
não podem ocultar
a sua natureza

vão e alimentam-se
em zonas proibidas aos comuns,
enfrentam os gigantes colossais dos mares
morrem e matam
todo santo dia...

quando voltam à superfície,
nadam soberanos
exibindo sua glória

a mim só cabe vê-los
admirá-los
amá-los com todo o meu ser
dizer-lhes, talvez...
que sei de suas lutas
seus medos
seu destemor
seu desespero por
vida!

que se um dia
quiserem disso falar
estou e estarei
bem aqui
à sua espera...

Eduardo Ramos
 — em dos seres abissais XII.


...dos seres abissais XII

domingo, 16 de março de 2014

Tão bom aqui

Tão bom aqui
Tão bom aqui

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui para rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
Tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestionamos elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
O de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
Em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
Alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
Refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
Eu nada sei de mim.

Adélia Prado

E AS LOUCAS HORAS

NÃO COMPRE ANIMAIS, ADOTE!!!BICHO É TUDO DE BOM .

NÃO COMPRE ANIMAIS, ADOTE!!!BICHO É TUDO DE BOM .